31 de julho de 2008

Tingir

A vida é tingir de cores várias
e olhar da varanda o dia
por pensar
qual é o vestido
qual é o ar
qual é a sombra
que se fez luz
e sempre recomeçar.

30 de julho de 2008

Paredes


Apenas a luz muda a cor.
Apenas a perspectiva
diz da direita e a esquerda,
do interior e o exterior.

29 de julho de 2008

28 de julho de 2008

Fios


Entrelaçamos cores e silêncios,
palavras, tempos e sentidos,
abrimos ao vento ocos e saudades
e olhamos mundo com volta de caminho.
Nunca sabemos da fibra que nos une,
qual é o fim, nem qual era o princípio,
quem é primeiro ou quem era o último,
na ideia nova do sonho compartido.

27 de julho de 2008

Casulo

Sob algum véu ocultas
rostos que foram noutra era
o tempo feliz, o paraíso
da alegre juventude,
e no casulo estão,
certo, seguro...
Perfuma-te com Channel nº 5
se queres cheirar a mim.
Veste a túnica vermelha,
se queres nascer de mim,
borboleta nova no feminino
dos masculinos etéreos,
e voa sobre o som efémero
de cada noite,
renasce no tempo eterno
em cada amanhecer,
esquece sempre que já me conhecias,
mas ama-me desde o tempo do nascimento,
exibe para mim as galas novas
que guardavas no armário
do possível
e na esperança viva
de achar o teu nome
nos meus lábios abertos,
nas asas leves que estremecem
e conhecem os dias de sombra
e a luz.

Fruta


Saborear a fruta madura,
aguardar o tempo de estio
com odor doce
e cor de alma saudável.
Renascer de textura nova,
renascer de sol e água,
renascer de intensidades
no círculo perfeito
da verdade.

23 de julho de 2008

O Caderno Bizantino XX

É formoso o tempo de Bizâncio,
a noite ao pé do café turco
e do narguilé,
escutar a oração
e olhar os mundos possíveis
do ódio e o amor.
Tu não estavas trás os muros da mesquita,
nem no Corno de Ouro,
nem no harém,
mas sempre estavas...
tão longa a tua sombra
e tanta luz!

Revela-te profeta
nos meus sonhos,
acarinha os meus versos,
estende a tua mão,
permite o beijo
de tanto amor triste
e feliz
em Istambul.

O Caderno Bizantino XIX

Ayasofya não era o templo de Salomão.
A sua cúpula sobreviveu impérios
e o seu verso um universo desejou,
mas eu não podia sentir mais fé
que a do desejo
e o nartex era a única oração.
Qual é a sabedoria que não temos,
a que nunca já fala de amor?
Rebelamos o tempo dos espíritos.
Não sabemos do tempo do perdão.

O Caderno Bizantino XVIII - Tempo de Allah

I
No céu estão juntos o sol e a lua
da primeira revelação:
Allah é o mais grande,
Allah é o mais grande
e faz nascer o dia na ablação.

II

Na cenita é a hora do silêncio.

Atestei que não há mais deus que Allah,

o único múltiplo, feminino e masculino

que entrega o máximo esplendor,

o som sem sombra.

Atestei que não há mais deus que Allah

e beijo o sol.


III

Atestei que Muhammed é o mensageiro de Allah.

Atestei que Muhammed é o mensageiro de Allah,

o seu profeta na hora na que a sombra

duplica a minha longitude

e dobra sempre o eco do que foi,

do que será.

Na tarde a oração

é o tempo fresco

da agua sobre o mar.


IV

A sombra estende mundos

e do minarete chama o instante do sol-pôr.

Vinde a oração! Vinde a oração!

O canto ascende no céu de Istambul

ate o rosto de Daniel na gloria do Pórtico em Compostela.

Vinde a oração! Vinde a oração!


V

Quando no céu ascendeu a estrela

e não se diferencia o branco do negro

nos fios nem no odor,

Allah é o mais grande!

Allah é o mais grande!

Não há mais deus que Allah,

antes do sonho da noite

a aguardar o tempo de amanhã.

Abraça-me, porque o caminho é longo

e conheço a brisa da cidade,

abraça-me na noite da Lançada

com as nove ondas,

abraça-me na arvore da vida

e no tempo dos chacras

cobre-me com luz de Bachue

na deidade longa que acaricia os ventos

do deus da chuva,

não há mais que Allah.

O Caderno Bizantino XVII


Trás os longos véus
a dança coexiste
com ronsel de ventre
e chador brilhante.
Tanta sensualidade ascende
na curva da noite
como cobre a túnica da luz
no Ramadão diário
do claro-escuro,
nesta terra extensa
de mulher.

O Caderno Bizantino XVI

Chegaram do Mar Negro os röm,
mas em Istambul
já estava Frank Sinatra
e cantava a New York
sobre a ponte de Ataturk
que na noite mudava a sua cor
e semelhava Brooklyn...
Eram os tempos do cabaret novo
e Frankie chegava a toda a parte
com exércitos de lindos coristas
azul marin
que repartiam canções e chocolates
na sombra da mesquita
e trepavam ao minarete
com tinges loiros para repartir
e o ultimo caça de confetti
em danos colaterais.
Os röm não tinham microfone,
e a voz estava intacta
mas na retaguarda ficara Santa Claus
que também tinha na saca
meninas de olhos tenros
que perguntavam
what will be?
com voz doce de Shirley Temple
e derretiam a guerra fria
para aquecer as montanhas
do longo Afeganistão.

As vezes o mundo era único,
tão formoso...
mas por que sempre que isto acontecia
brindávamos com a melhor reserva de coke
e falávamos todos em inglês?

22 de julho de 2008

O Caderno Bızantıno XV


No Grande Bazar de Constantınopla
vende-se algaravia e paz.
O tempo dos caravançarai não cessou nunca
e o passo dos camelos deıxou chá.
Sım, compreı a lâmpada de Aladıno.
Já temos mundo por sonhar.

O Caderno Bızantıno XIV

Não há mendıgos em Bizâncio.
O maıs pobre vende a sorte a cor,
a sorte boa do coelho branco
que escolheu meu nome
e me deıxou com sorrıso no rosto...
sempre a pensar na palavra
e no amor.

O Caderno Bızantıno XIII

Sempre houve peıxes na Cısterna da Basílica
e nadavam longe dos olhares da Gorgona,
entre a levíssima luz ınversa da manhã.
As filtrações do tecto reıteravam
a agua do meio-dia nas escamas
e a cauda se tornava mármore ırısado
se o sılencıo da brânquia
não alcançava o escudo de Pérsio,
camınho a Pérsia
e conhecıa os múltiplos vendedores
que descıam cedo a noıte da Cısterna
a procura de olhos mıneraıs ao pé de Medusa,
enquanto ao longe tangıam vıolıno na chama azul.

No estıo bızantıno apenas chove sob a terra
e no Nazar Bonju.

O Caderno Bızantıno XII - Setıma Ucronıa


A musıca de Istambul canta a Orıente e
Ocıdente e ao Sul.
Mana a água e o jardım
é frescor na tardınha.
O Lıvro de Xerazade foı o meu poço
desde que ele me entregou o derradeıro anel,
assım aprendı os prazeres da pele
e as cores entre o púbis e o céu.
Já os meus peıtos sabem
de cada tom
e modulo com gozo a mınha voz
para que os véus prolonguem
a rosa
que é um fıo de humıdade
no espelho a reflectır sombras e luz.
O meu canto sonha a lıberdade;
é um pássaro na jaula o meu prazer.
Meu corpo é o senhor,
o meu sultão que fıca junto ao harém,
o rıtmo das cadeıras ate o vão
e os meus braços ao voo
até que nasça
das mãos o frescor da erva
e os ocasos
dourem com canela
o meu sorrıso azul.

Perıssıa VII


Na noite paria sempre alguma das estrelas do Val de Derbent
e os astrólogos cantavam cada dia outro fado no céu.
Alguém criou o tarô no caminho das caravanas,
na sombra da figura do egípcio e o ermitão,
no ícone hermafrodita de Goreme.
Os caminhos do devir talhavam rochas
no magma dos plenilúnios
e a areia mostrava as cascaras do ovo cósmico,
no odor a ti, na saudade de cada amanhecer.

Perıssıa VI

Göreme, a velha Maçam, a Carikli Klise,
as pegadas da sandália
no percurso do judeu
e o cristão ao pé do turbante luminoso
do neto de Ismael,
a partilhar o deus da terra,
o deus do céu,
com um chamam.
Uma voz de anjo predicou no meio-dia
o frescor da igreja alheia,
a paz dos séculos,
nos braços o abraço dos mundos,
num olhar o único paraíso
dos olhares na cor diversa
de uma luz.

21 de julho de 2008

Perissia V


Entre Kaynakli, Derinkuyu,
Ozkonak, Acigol, Mazi,
Tatlaria, Açiksaray
e o Pico Sacro,
ate São João da Cova,
habitaram os tempos
as gentes da brilhante escuridão.
Apenas a magia era o pão,
apenas mão na alma,
o vinho do eterno ritual
que sabe do ser e do poder,
do poder ser, sem ter,
para deixar
o ritmo da deidade
na vida sob a terra
e o passo possível do espírito
dos sonhos e do ar.
A profundidade era
o caminho dos olhos
a aguardar
o verbo único
de um demiurgo
breve
além mar.

Perissia IV

Foto de Alexandre. Raquel e Amed na luz.


Companheiros meus de tempo breve

e intensa lembrança no viver,

caminhos de palavra

e de sorrisos,

numa terra de fadas

e lecer.

Perissia III


Da porta sempre branca
e do caminho mesmo um tetrasquel,
e a luz da estrela que ilumina,
irmã de sonho,
este som de mel.
Um mesmo amor nos tempos,
o desejo comum de acariciar,
e terra sob o peito, e lume longo,
e água nas saudades do cantar.
Igual calor e único frio,
passo afronte,
olhar ao mar.

20 de julho de 2008

Perissia II


Era o tempo das fadas e a palavra.
Habitavam a rocha tantos rostos:
Os povoadores sob a terra
e os espíritos do céu.
A vida abriu caminho para o sonho
e tu estavas perto desta fe .

Perissia I - Paixões turcas

Foto de Alexandre

Em segredo me disse que era bonita
e eu olhei os seus olhos cor de mar,
o cabelo de areia em meio da paragem
da terra de Perissia
entre as chaminés nas que amaram fadas e homens
contra a mesma vontade dalgum deus.

Depois perguntou pelo meu nome
e convidou-me a uma noite de vulcões...

Ainda não chegara à minha pele
a cor da sua pele feita sol.
Levou-me ao fundo do bazar
para um presente,
falou com voz de mel na minha voz,
colocou no meu peito
um pequeno nazar bonku
de tenro coração.

Eros voava no vento da Capadócia,
quando Mustafa tomou a minha mão
e o rosto para um beijo breve.
Logo pediu mais.
Eu fui embora.
Outra vez chamou por mim o mar,
a oferecer novos azuis para o pulso
e uma paixão para o olhar.

Era tão novo o tempo desta Ásia,
os seus lábios eram mundo por beijar,
que eu disse não de novo,
e nem sequer sei se disse não.

Entregou cartão com nome,
endereço e também contacto em celular...
e fiquei com brilho de uma estrela
e noites de fada por sonhar.

As Folhas da Anatólia XII - Sexta Ucronia

Ecoavam as historias no caravançarai,
os contos de Oriente
no tempo do sultão Aladino.
Cheirava a camelo e a suor,
mas os espelhos marcaram já ao longe
o brilho da arvore da vida
nos espíritos de terra e céu
e as pombas namoraram rouco som.

Na noitinha de inverno, trás a oração,
o espírito da seda crepitava
e a pedra do vulcão guardava
o calor do ouro e das espécies,
e o saber de Xerazade relatava
os sonhos antes de dormir
na terra dos cavalos formosos,
enquanto saboreavamos o ayran.

As Folhas da Anatólia XI

Os palácios brancos...
O mar morto ficou sob a terra
e a fonte foi o novo corpo
dos camelos que chegavam da China
e os assírios que chegavam do serão.

Cobiçou ocidente e teve oriente
espécies e seda no caminho do tempo,
entre o nascente e caravançarai.

As Folhas da Anatólia X

O corpo fecundo de Cibeles
resplandecia de humana deidade
em carne múltipla e ventre de mulher.

Como conheço a pobreza
feita sangue em morada
de lama e girassol.
Era o castigo, de costas
a fecundidades,
longe do calostro
e a traição.
Queria ser peito
a antena parabólica;
a palha no chão era de dor.

As Folhas da Anatólia IX



Zipaquira, perto da tua mina interior
o outro extremo do mundo.
No centro e meio da Anatólia
há um lago de sal e o odor intenso
caminha sobre as aguas
no mesmo mineral das lágrimas
e os beijos que afogamos
naquelas longas noites junto ao mar.

As Folhas da Anatólia VIII


Que longo o beijo desta planície
com lábios gretados
e a agua a naufragar
o sabor alvo do sal.

19 de julho de 2008

As Folhas da Anatólia VII

Há uma sombra longa que viaja
na pedra amarela da paisagem e no céu cor Anatólia azul
da ultima suspeita liquida sob o sol.

Era o teu anjo novo que chamei com guizo dourado,
ele trazia o maná das lágrimas
ao ermo longo da espiral.
Este longo passo para a rota da seda
e os caravançarai
tem a linha extensa de cereal
por alimentar o sonho nómada
das expedições.

Era a surpresa no horizonte
o tacto das asas a sobrevoar
e cobrir do teu desejo o corpo,
com túnica de borboletas
e som de lume a crepitar.
Era este o passo da chuva sobre o mar.

As Folhas da Anatólia VI

Para Alexandre, meu companheiro de viagem.

Meu Iskender, o defensor dos homens,
que chegou ate Anatólia desde o mar
e fumava no bazar o nergile
de pêssego brilhante
e também dormia no meu ombro
o cabelo da cor do cereal
entre Ankara e Lago Salgado,
na longa chaira das colinas,
no horizonte, da terra ocre,
das breves oliveiras,
no ocidente de Ásia,
quando o tempo moldava
a doce travessia
ao pó das transições.

Meu Iskender, o Novo,
o filho das nove luas dos keltoi.
Esta longa auto-estrada
tem a seta das sendas
da ribeira fértil
e o teu destino é longo por sonhar.
Adivinho no teu tempo
as palavras
e os espelhos de agua
nesse olhar.

As Folhas da Anatólia V - Quarta Ucronia



Libávamos o sangue do ultimo cordeiro
ante o trono de Midas, na cidade de Gordião.
Os frígios adoravam Kubaba, a deusa mãe,
a que ressuscitava os leões com o cheiro
do licor de andesite e buxo zoomorfo.
Kubaba não amava nunca em leito de ouro
e Midas nunca em Kubaba amou.
A profecia cantava os guerreiros
e a terra tecia canções.
Então chegaram os profanadores
e o frígio sucumbiu no grande tumulo
com o seu crânio impuro sem vestígios,
apenas gloria de lama sob o sol.

As Folhas da Anatólia IV

As capitais criadas
sobre luas vermelhas
e cruzes brancas,
centros centrados
das novas civilizações
que sempre têm Burger King.

Chegarão os tempos e as palavras
ou Ankara não será
... mas perto procuram esperanças
os habitantes do gecekondue
e os filhos da ultima Caerleon.

18 de julho de 2008

As Folhas da Anatólia III

Como se dobra o tempo sobre os vales!
Nas estrıas de mundo
a Grande Mãe
mostra o seu ventre poderoso
assınalado no canto de aguardar.

Anatólia tão longe do mar!

As Folhas da Anatólıa II - Ucronıa Terceıra


Passeamos a cıdade de Aphrodısıas
ao alvorar
nos relevos das portas
entre as que Vénus mordera a maçã.

Os cıganos crıavam corços de ouro velho
no Templo de Salomão
e os palácios otomanos
voavam em tapetes ate o sol.

As Anatólias tecíamos com lá de angora
gatos que pıntaram todo um mar
desde a chaıra longa
no camınho amarelo de sonhar.

As Folhas da Anatólia I - Ucronıa Segunda


Ah... os leões de Babilónia
deıxavam o seu bafo na pedra dos hıtıtas
e o sol brılhava na armadura
do jovem Alexandre
o fılho de Fılıpo
que chegou com exércıtos
e dom dos macedónio
no longo tambor de guerra de Ataturk
a dızer de uma outra pátria
sob a estrela e o chador.
Ah... meu perfıl romano
o meu cabelo mongol
e o nome dos nomes
ao pé da encruzılhada
a predıcar a nação.
Nascı na longa Arménia
do fılho de Jacob.
Nas montanhas dos kurdos
fılho nómada da dor...
ucronıa e utopıa
dos ventos lıvres
sou.

O Caderno Bızantıno XI - Ucronıa Prımeıra


Noutra época viajávamos no Orıent Express
rumo a Bagdad
e descemos no Corno de Ouro
para o tempo de um café.
Naqueles dıas eu vestıa um longo fato branco
e um chapéu com fıtas da cor do açafrão.
Istambul tınha o nome aında de Constantıno
e os olhos de luz.
O meio-dia era a hora da oração.
As rosas da ucronıa medravam todo o ano nos jardıns
e o chá se servıa em chávenas da Chına
com com flor de loto no vão.
O mar ameaçara trovoada
e o teu rosto paixão.
Bagdad nunca chegou.
A sombra das tardes beıjava fıgos turcos
e as noıtes dançavam nos meus véus
a pele canela do teu som.

O Caderno Bızantino X


As cúpulas de Istambul e os mınaretes
da noıte da alma
estremecem um delıcıoso erotısmo
enquanto entoam rıtmo de saz
e a cıdade descansa no leıto do Marmara.
Nos banhos os aceıtes aromáticos
perfumam o espírito com luz.
O tépido desejo é a calma do amor
e o sabor das uvas canta resplendor.

O Caderno Bızantıno IX

Um brınde por cada mınarete
da Mesquıta azul!

O Caderno Bizantino VIII

A voz do sefardı tem o olhar de shalom
e a orıgem ancorada
no rosto de um não foı.
Que longa perda Castela e Aragão!

O Caderno Bizantino VII

Foto de Alexandre

O Bazar Egípcio é a calma
do movimento
a delicia das espécies
e o fume branco do narguıle de maçã.
Perco-me na Porta Leste
na inspiração do çay
com o caderno verde
e os olhos negros
a olhar meu tempo
que chegou do pais da chuva
a beira-mar

A poesıa é viva em cada voz
e os passos pısam saudades de amanhã.
A voz do turco.
A voz do sefardı
e o vento do encontro num cantar.

O Caderno Bizantino VI


Foto de Alexandre

Naufrago na taça do çay,
entre os aromas do kekikli
e a doçura do petek bal, o fanal de mel.
Aguardam as sultanas, kuru uzum,
mil delicias:
o lakum, com os figos kuru kayisi,
e a musica da manhã.
Já chamam a oração para o mihrab
e o ar povoa-se
de ascendente fé de iman
no dia de cuma.
Na Basílica da Sabedoria
procurarei a fortuna dos arcanjos
que pregam em Maria
enquanto oram a Ala.
Mendigarei espécies no imaret
com os lábios de Kosem,
a bela Anastácia,
a do rosto de lua, Mahpeyker
... so porque me ames como Ahmet.

17 de julho de 2008

O Caderno Bizantino V


A tardinha ascende no céu que sustentam
os seis minaretes da Mesquita Azul
e a musica do rabab,
a merguile de cristal junto ao café expresso
e a luz.
Orei por um sol-pôr de paz
e dancei no ritmo espiritual
da ladainha na mesquita de Ala,
o único, o múltiplo,
o espírito do cosmos que esta em nos.
E alcancei a oração da noite
com a voz do muecim
antes de o sol dormir.

O derviche girava com a energia cósmica
na mão do céu
e a dadiva na mão a terra
e o uno no múltiplo por mim,
com movimento de uma túnica alva,
na que o amor se aspirava
de rosáceo éter
no ritmo sereno da mística
que povoa o tempo de ascender.

Tenho nos olhos canto de luz.
Tenho no ouvido o sabor de fé.
Tenho no tacto céus de uma cor.
Tenho no gosto odor de flor.
Tenho no olfacto agua a fluir
... e a dança dos astros levita em mim.

O Caderno Bizantino IV

Foto de Alexandre

O Mar de Marmara
tem o vento
dos teus olhos
a ondear bandeiras anárquicas
de corsário celeste
e a saudade das estrelas
que acariciávamos
com as mãos ao mundo
e o coração aberto
a derivas continentais.

O Caderno Bizantino III


Procuro as teias ricas de Oriente,
um luxo de cor,
e a henna para pintar desenhos
e cantos de espera
enquanto no peirão se doura o peixe
na confluência,
no caminho a Tróia,
no caminho a Helena,
a chamada desde o minarete
e o sino cruzado do tremor.
O mundo torna túnica possível o nome da luz
e o sésamo nasce no paladar,
semente azul de Aquiles
que viajava ao Sul.
Quero orar na mesquita
o esplendor do mosaico bizantino
enquanto a questão eterna
dos anjos
aguarda tempos mais propícios
no lábio do desejo a latejar.
A ser canela no corpo e no olhar.

Os velhos sacerdotes não sabiam
da noite de espíritos revelados
no odor de amores encarnado
nas ausências longas de Penélope
e no corpo de Ulisses
com dom de carícia e mar...
As teias de Oriente,
os sínodos,
o mito e o logos a criar

... Ai Bizâncio, Bizâncio,
quantos véus ainda por tirar
na dança longa do velho mundo,
na textura dourada de um outro chá.

O Caderno Bizantino II


Os aeroportos. As nossas falácias livres,
os nos do mundo, as escadas do submundo,
as portas da nova Jerusalém
para os céus que marcaram com fronteiras.
O tempo e o espaço verificam a relatividade
com pássaros de branco metal,
com peles e formas diferentes,
com olhar e passos que não tecem,
com bagagens maquilhadas de interior,
e os corações submergidos
em glorias e em abismos,
limites esotéricos exportados
ao espaço atmosférico,
extrabiosferico
sem dons.
A proximidade possível
une e afasta,
troca a cor do papel moeda
e intercambia sucedâneos
rosados do amor.
Este planeta não pode ser o mesmo,
inside, coke, inside,
não há interconexão
do abraço tenro que faltou
na manha das aguas
e não ascendeu no caminho global.
Nestas colunas
não permitem
a visa retratada com batao.

Ervinhas

Ter o coração tão cheio
não é o caminho
mais doado para dizer.
Mas nos olhos levitam lágrimas
de afectos.
No peito navegam vagas
de sol-pôr
e a luz das ervinhas
é o sulco
da terra, boa terra
das canções.

16 de julho de 2008

De A Terra de Tir nan Og - Prefácio e Entrega

Foto de Iara

Para Gabriel Tuya http://elgatoutopico.blogspot.com/

Pergunto-me qual é a terra das andorinhas, essas que por aqui vemos enraizar cada primavera e ir embora cada Outono em busca do calor.
Quiçá a sua pátria seja o estio, quiçá tenham pátrias compartidas.
O meu avô emigrou a Argentina e passou nove anos a sentir-se galego em terras da Prata e o resto da sua vida a pensar Buenos Aires desde a velha Compostela.
A minha avó ficou. Durante nove anos olhou para América todas as tardes e o resto da sua vida partilhou-a com aquele ser grande e híbrido no que o meu avô se transformara.
Aprendi a viver entre duas terras. Saber que as pátrias não são possessivas, que se podem amar como aos filhos, de jeito diferente, acumulável e torna-las irmãs e medra-las. Descobri que as pátrias são como os pais, próprios ou adoptados: origem, referente, património que nos apresenta ao mundo. A nossa pátria é a língua que nos deram, o jeito de fazer que nos mostraram. A nossa pátria é a pele que nos cobre quando procuramos outras peles para sentir companhia. Um caminho de mundo que promete esperança.
Por isso tenho esperança.

Dinâmica


Na dinâmica inexacta
de um sorriso
perdem-se as leis
da gravitação universal
e os caminhos verticais
propõem
desenhos na alma
nos que sempre és feliz,
minha pequena...
nos que sempre és feliz...

15 de julho de 2008

الحارس السماء


Guarda os céus e a bravura
para o tempo das estrelas novas,
as que nascem lentamente
e são só luz.

Guarda o canto do sonho
e deixa a ursa parir.

Vai renascer a raça dos astros
e a aurora das canções
para tingir de laranja
o sino do que reinará.

Achega-se o tempo
das lanças de ternura sob o sol,
quando o senhor do vento
semeia corais
e a música torna redenções.

14 de julho de 2008

A roda

De cativinhos sabíamos
qual era o princípio da roda
e qual o final:
sempre o mesmo.

Sabíamos correr ao redor
sem parar-nos
até render o tempo
ao círculo exacto
da nossa própria curva
entre risos exaustos.

Sabíamos todas
as canções do corro
e unir mãos e olhares
em ritmos diversos,
girar e voltear,
estar e ser parte.

Passou tempo.
Foram ficando ocos.
As palavras cobreram de pó
nomes e cantos;
às vezes os recantos
tornam-se silêncios
e a recta se impôs
em triunfos exactos.

O ciclo deita a infância
entre versos de menta,
joga com os olhares
e renasce com sonhos,
volta, reviravolta
e voltamos revoltas,
giro, remexido
moinhada do moinho
... E mais uma vez,
começar a começar.

13 de julho de 2008

Renascer


Longas alvas por despir
e um caminho.