11 de Novembro de 2009

Na moda dos tempos de ensonhar

Entre portas fechadas e quartos escondidos
guardam-se os fatinhos que a menina perdeu
e as modas novas e os dias trajados
de cores intermitentes e de montras cansadas.
Perdo chaves, gavetas, nego até os guarda-roupas
e sobre a pele espero uma pinga de som,
vestida com a chuva dos versos e as carícias
passeio pelos mundos do ensonho que passou .

8 de Novembro de 2009

Demiurgo

Descem a chorar os espíritos da noite
pelo caminho que marcaras desde o Leste,
uma vez acordado pelo vodka aquele dom
e sei que choram de alegria.
É estranha a mim a vida,
é já fala em jornadas de agoiros,
meigas pretas,
e vigílias de amor
em que a ternura sobrepassa o prazer
e fala alto com outro nome,
quando me abraçam peles de ébano
e me deixam marcas
de luz e sombra
e a saudade é de nós.
Mas a música ainda ecoa e diz de dias,
confundidas as notas nesse mundo
real das ideias em que habito,
o amor de filósofos perdidos
com odor de cavernas
povoadas pela menta mais verde
que nascera em campos
de velho resplendor.

7 de Novembro de 2009

Dormir... talvez sonhar

Era o tempo da vida a fugir o sonho lento
que tornava neve o corpo
e violentava os dias de ternura,
voltava a nós as asas
e queria ser um tecto,
viver, dormir... talvez sonhar.

6 de Novembro de 2009

Da saudade

Passou o tempo de perder
e o tempo de sonhar ficou
no cesto pequenino dos cogumelos
entre cores minúsculas
de ser no sutil campo,
das últimas rosas em outono.
Perdidas as essências de um amor
fica o amor puro
e as saudades nascem da vida que prosegue,
enquanto voam lembranças
e as células dos mais puros espíritos
no corpo renascem a prazer.
Achegam-se as carícias das terras,
a língua destas vozes que me falam,
o espaço onírico do som
e o canto de um nós que se tornou
manancial de versos
e silêncio,
no lume do lar
luz e calor.

5 de Novembro de 2009

E...

Vibra a madeira.
Números de pele sobre a erva.
Fungos a saprofitar sentires fundos.
Sempre e ainda a seiva por dizer
do beijo que nunca se tornou
vertical em horizontes
sem batuque.
Mas estou.
Vibra a madeira.
Desejo acarinhar também eu o soco da tua nuca,
e tornar na curva para o ramo
flor das tuas flores mais segredas.
Madeira em flor, vibro em amor,
longe dos pertos de cada dia,
tremo com tactos vegetais
e...

4 de Novembro de 2009

Da minha aldeia

Eu era a menina que nao tinha aldeia
e desejava terra para arraigar.
Uma vez semeei batata no quintalzinho
e nasceu.
Uma vez menti e contei que tinha aldeia
e pensava nos carreiros breves
e em tanta erva para alimentar os olhos
e em tanta luz para regar os sonhos
e em liberdade,
na longa liberdade sobre a sombra do tempo
e dizia a esperança naquela mentira,
pequena, como a língua que entao a deleitava
no espírito de mátrias e cálidas cozinhas,
este canto de hoje à aldeia que me habita.

30 de Outubro de 2009

Achegar Samains

E aguardo o tempo novo,
comungo com a seiva salvagem,
com os fungos,
para viver eu morro
e deixo a fibra livre
a remediar
os encantos da fonte
e este lume
de abraço desejado,
e lar ao vento.

29 de Outubro de 2009

Ruas

Caminham pelas ruas. Eu quero estar na casa.
Saio por dizer que já chegamos e nem chego.
Lembro como beijamos na rua cada pedra
e foi nossa perto dos sorrisos
a espera da alegria que de longe
aguarda no teu olhar sem mim
e no meu olhar sem ti,
para o tempo que dormem as mouras,
para as saudades todas dos poetas
sobre a carne.
Se algum dia houve ruas
foi nesta dor, naquele tempo.

28 de Outubro de 2009

Guardachuvas

Sob um guardachuvas levo ervas por vender
e acheguei-me ao silêncio enquanto chovia
e as palavras desciam pelo corpo a dizer
todas as verdades esquecidas
e eu levava o guardachuvas
no tempo das distâncias
sob as presenças líquidas
um guardachuvas,
um rosto sem olhares,
a esconder os cantinhos
e viver no interior da teia
com cada uma das cores
até que entao um dia
deixe o sonho de chover.

26 de Outubro de 2009

Fantasmas

Como chegam os quartos de aguardar até nós e ficas em silêncio e deixo o tempo a ocupar apenas um bocado mais de tempo, e as luzes tenras a calar e fechar portas que ainda estavam e os anos que passaram sem passar, pelas penas das nossas tristes asas. Anjo de cor, leve e antiga borboleta nos espaços da pedra universal a tornar as salas da lembrança na saudade de vida que me abraça.