29 de maio de 2009

Rios até o mar

Que a luz seja entre nós
e as portas deixem
tempos de leitos entre as águas
e sol entre os carvalhos,
companheiros.

28 de maio de 2009

Para Laura, Para Néstor, na Primavera dos guardachuvas

As palavras vivem para além das noites tristes,
de pedra, minha amiga, meu amigo, sob a esperança,
com o canto do galo o caminho era justo
e liberdade mora em almas solidárias

25 de maio de 2009

Curvar a luz

Curvamos a luz e logo o tempo,
até ser sem ter e ter na alma
o abraço mundo
que nos guia,
o sabor profundo
que nos abre
a alva de aguardar,
sonhos sem sonho,
e a linha da força,
amor de amores,
no meu ventre um oco
desde ti.

19 de maio de 2009

Língua


Se me levam a língua,
quem volteará os sentidos
e o descanso,
a memória do mundo
e as papoilas
para dizer-te
e que sejas
outra tarde
meu amor?

14 de maio de 2009

Horizonte

ao Vida é pensar aqui e ali e no depois,
se o medo a derrotas deixa dias cinzentos
na colheita futura,
lutar e pensar na sementeira de cor:
laranja de zenoura,
vermelha de morango,
branca de couve-flor,
verde de alface,
amarela de melância
e com todo o campo ao sol.
O horizonte, do alto,
no depois e mais depois,
e acreditar que um sorriso
é o tempo que já foi.

13 de maio de 2009

Iara e Fenela

E fazer um corpo com o destino
e saber que o animal
lambe os espíritos.
Deixar que o tempo seja
novo espelho de almas,
ao longe e perto, perto,
dos sorrisos que amaras.


12 de maio de 2009

Alexandre e Ulisses até

Voar até que as asas deixem a linha do tempo a chamar
e os teus versos acarinhem a vida e tornem dia mar
e até que sorrias sobre a terra e tornes longa história
o caminhar,
adiante, sempre adiante,
olhar, lutar, seguir, cantar,
feliz amar.

11 de maio de 2009

Voz de mulher

A plena voz, diziam
do seu destino e alguém acreditava
que as palavras não foram bonitas.
Remilgavam na dor da morte incómoda,
denunciavam de branco desde a vida
e sabiam de nós e das mensagens,
dos títulos, dos óculos, mentiras...
oráculos de falsidade oculta
pela balança inexacta do ouro
e a ladainha.
E calamos. Porque falavam
de um jeito que não era bonito,
mas olhavam como quem
não tem mais vergonha,
com o coração feito montanha
e rio
a manar mundo
desde a mesma cor das silenciadas.

10 de maio de 2009

Realismos

Do olhar da mímese à liberdade
e do criar-se até a pele velha do vivido,
barbados chegam os espíritos do tempo
a pedir lugar e a moeda por costume,
mas eles superaram a esperança.
Pandora foi amante longamente rejeitada.
Já os rostos cheiram a sem-idade,
já a garrafa tem fumo e sem-memória
e o banco do jardim fogar sem tecto,
por partilhar o livro mais saudoso da existência
na nave breve do longo esquecimento.

9 de maio de 2009

Horizontes

Até onde cheguem as cores e os versos,
até ali onde respire o espírito,
e os horizontes tenham tempo de sorrir
com calma intensa,
braços tendidos,
linhas de espera.
Até ali chegará a nossa casa.

8 de maio de 2009

Os jogos da Bela Adormecida

Entretanto a roca ficava à espera
e a bela visitava no sotão
com os desejos púberes a flor de pele
e acreditava na vida até os confins
e no amanhã certo dos meninos ricos
e deixava a roda revoltar, brincar
com o fino fio dos fados e os sorrisos
no jogo segredo do proibido
e trazia rosas vermelhas como azar
na chave da adolescência,
nos longos dias da primavera,
tempo antes do sono e o acordar.

3 de maio de 2009

Sacos

Torno vida e força
com o tempo a levar as palavras no saco sem fundo do vivido
e os amores no saco com fundo do amado,
parte do que foi e o que será
no é que nem existe, nem conta,
nem volta
por nunca e sempre
e volta a ser.

1 de maio de 2009

Paisagem de aniversários rotos

Tinha os aniversários na sem-memória
e o sono erguera a saudade,
o oco de ti na minha cama,
junto a palavra e amores confesados
que nem eram tempo namorado,
mas amor.
Povoamos as geografias
de interior e exterior, de pedra e carne,
de águas, montanhas, santuários,
e faziamos dos anjos um tremor
e o amor mesmo dos sonhos retornados,
meu meigo, ao pé da brava costa,
em terras do pôr-de-sol.
Doias tanto como deixavas em mim
abismos duros de verdade intensa
e os segredos despiam decorados
e pediam o formoso e o horror
no plano mesmo de ti,
a fera brava de monte orgulhecido,
de ti... e eu queria abraçar-te durmido
e fazer-te senhor de uma senhora,
ou nem sei se poeta de uma dona,
ou nem sei se livre liberdade,
ou nem sei se perder-te e achar-te...
Quero, meu poeta, teu calor...