31 de março de 2009

Primeira Primavera. Para Sol Milena

Chegas a este povo e a esta língua
a companhias longas, desejadas,
e um beijo de terra te recebe
com cor de prata escura em prata clara,
com a luz do teu nome, Sol Milena,
que une águas velhas, novas águas,
e te torna tecelã de mundos
a costurar em finas filigranas.
Os afectos que abrem primaveras,
nó cósmico antes de Tir-nan-Og,
na costa verde e tenra das galaicas.

Ninho aberto. Para Cláudia. Para Mari Carmen

A nossa casa é a casa inteira,
ir e vir, vir e voltar,
o percurso de vindas que se achegam
ao tempo azul do mesmo mar
e ficam nas palavras e nas rotas
nos sonhos de sonho e ninho aberto
a uma mesma rosa que é de ventos.
Navegamos paisagens e cantigas,
sutaques, climas, rostos, também almas;
chegamos em cor das mesmas cores
como aves que voaram sobre as águas
e ficamos sem ficar,
nômades todos, mesmo os que acreditam
que têm pátria,
quem diz que a pátria é uma língua,
quem pensa que o amor é sua pátria,
quem desce na memória do seu rio,
quem vive no lar das esperanças.
A pátria vai connosco, companheira,
no braço saudoso da palavra.
A mátria é memória das memórias
e deixa o seu rasto nos olhares.
As cadeiras colocam junto as mesas
mesmo nas terras mais distantes
e nos antípodas os pés ficam no solo
e as águas chovem céus e folha as árvores
e os sorrisos também sanam as penas
e os beijos e as lágrimas dos amantes
conmovem na mesma saudade
mitocondrial lembrança do homo sapiens.
Sempre para ensinar se aprende
a comprender o calor de outros lares;
sim, para medrar se aprende
que em cada ninho houve um migrante.

O espírito das águas

Do abraço do mar ao teu abraço
chega o tempo da ilha,
e o espírito das águas libertado
confina-me em prazer
e amo.

30 de março de 2009

Lar

Sempre volta a voz ao lar que foi.
Repartem-se a terra e as paredes
o longo desejo de calor
e acabam por ser o mesmo caldo
os rostos do que é e do que foi
em Compostela,
na rua velha,
na casa efémera
a cozinhar
terços de ladainha eterna,
e o mesmo amor a caminhar
na carne em primavera
da estirpe que sabia almar
o jantar do vento com canções
até a mesma ressurreição
do espírito da luz,
quando voltavam a arruda e o romeu
a cimentar ciclo de vidas
e a carícia nova a retomar
lar e palavra em lua ao sol.

29 de março de 2009

Línguas feitas carne


Línguas feitas carne propedêutica
sonham verbo em curva descendente
e deixam ao vento o seu lamento,
verme de tempo como um templo
em propostas de além,
um sacrifício de dor e passados,
lume alento...
A luz abre boca nova e céu,
rectilínea alma
entre os silêncios.

28 de março de 2009

Âncoras aquém. Para Ramiro Torres

Foto A.B./I.A.
Para Iolanda Aldrei, procuradora.

Esta rosa que nasce entre o ser
E o teu caminho traz a recordação
De todas as mudanças que vêm:
Aqui podes descansar o peso dos
Tecidos aderidos ao corpo, dar-lhe
À transparência o seu lugar nas mãos,
Nos olhos nadando os peixes do vazio.

Tua é esta linha que atravessa o tempo
Rumo às barcas perfumadas de sol,
Incrustada em tuas veias a canção
Da procura, a alimentar toda a luz.

Dezembro de 2008. RAMIRO TORRES


Ancorada na baía, proa a terra,
a nave do velho Alexandre voltou.
O capitão amarrou duas lágrimas,
descarregou no porto cheiro a mar,
reiterou a Terra, terra sua
e foi a casa logo, acompanhado
por compadres de longo navegar.
Urbano Lugris apresentou-lhe
Ismael e o capitão Ahab ,
e confessou ser o autêntico,
o único, o mesmo, Ulyses Fingal
o armador de mundos,
terra adentro,
em tempos revoltados até o azar.
E soubemos do cavaco, do convívio,
muito perto da rua Irreal.
Convocados por marinho de sonhos,
achegamo-nos logo a libar o rum
e escutar os cantos que nasciam
acrónicos entre as pátrias e os cais
e pensar em dias que já foram,
em tardes que vinham de além mar.
À sombra da biblioteca, o tempo,
deitava-se utópico a aboiar,
e o coro cantava em voz de ilha
e revoltavam bússolas no olhar
Branda, Carmen Cierto, Karlom López,
Manuel Silvestre, Manoel Bonabal,
Nacho Baamonde, Omar Kessel,
Nando Lestón, Roberto Castro,
Rubén Fenice, Espiñeira,
Sebas Anxo, o Cerviño e Inma Doval,
deixavam nas memórias uma imagem
de luz colectiva e água-lar
para acolher palavras que desciam
até a ribeira desde um vendaval
e partiam papel e rumo ao norte
na nave de moluscos, alga e sal
desde a Torre em Torres de Ramiro.
Alexandre, o novo, companheiro
de incursões na casa do xará,
era coro dos versos que ancoravam
na pele, na árvore da vida,
na luz original, e mão em mão,
viajante também sobre as cidades,
deixava-se esculpir na transparência
que emergia do verbo,
da pena de Ramiro a desenhar
um mundo próprio e colectivo
no que me sentia uma vez mais,
como a luz serena da noite
em que volvemos, sempre,
ao início do canto da união.

27 de março de 2009

Cairn

Semeáramos o milho e as patacas
e floresciam os campos.
Na tarde era sorrir o tempo para o rio
e caminhávamos à beira das zanquinhas
na era dos répteis, dos insectos,
tesouros que aguardávamos no olhar..
No monte brincavam fentos, tojos, carvalhos,
castinheiros, hera longa e cor a acarinhar...
E os muros diziam de fronteiras,
paraísos abertos a chorar,
mas ainda vegetavam as pedras
e segredavam amores como um lar.

25 de março de 2009

Entre cadeias sonhar

Se for por guardar a cor, cadeias não.

Se for por levar o som, cadeias não.

Carne ao vento, luz em flor,

livre tempo voa amor...

... cadeias não, cadeias não!

24 de março de 2009

الزغابي


Abu 'Abd Allāh Muhammad,
abrolham os carvalhos no vale do Pico Sacro,
e em Moraime dançam os espíritos
antes do mar,
e Morayma retorna por chorar
desde as terras virgens
dos sonhos brancos
e os filhos dos nomes que cantaram
as lendas da única dor,
a sombra e sol,
desde o Sul.

23 de março de 2009

Andalusies

Andalusies de cor...
O mundo era mundo ainda
e os pássaros deliciavam
mãe terra.
Construir era tempo de fé
na árvore múltipla da vida
e Alá feminava humidades
no paraíso.
Alhambra de al-azahar,
adobe novo dos brilhos,
mármore dos sonhos de verão.
As estórias nasciam da canção
e voltavam os meninos a sorrir
e os adolescentes namoravam
sob os arcos
no sutaque universal da pedra nova,
tornado o céu,
revoltada a primavera
quando prometiam as roseiras sombra,
adorno,
lua de caminho à serra branca
a criar líquidos sentidos
de coração a céu aberto
e fonte,
laranjeira,
Alhambra, menina morena,
olhos de brilho,
bocas de amor,
raíz lavrada no aroma das vozes.
Palavras galaicas
que diziam das idades novas,
terra a Sul e longa estirpe...
Tanto tempo a criar memórias
para nós

19 de março de 2009

Primaveras

Vivemos o tempo do amarelo a sol pleno,
a terra viva.
Acordam as flores e os rapazes namoram
de sonho e verde carícia
e reiteram a seiva animal,
janela aberta, alma ardida,
pele nova e linha ao som
da adolescência sentida.
E moro em fonte de moura,
cor de cor,
num caderno
de palavras perdidas.
Abrocho ainda nas águas
entre os contos e os cantos
das mesmas raparigas.

18 de março de 2009

Para dois

... Convidar-te a pensar a vida desde o dois,
desde o mundo dos magos e os silêncios,
a calma de olhares que eram linha
e abraço em braço por sonhar,
palavras de milho e buzio fresco,
alvas de frio e um regato,
mais brilho em partilhar o alento,
no beijo de beijos que ainda lembro.

17 de março de 2009

Escudos de Senhor

Ícones vestidos de poder.
Passa o tempo. O império perdura.
Chega mascarado de ternra,
como fora árvore, para abater as árvores,
como antes fora ave, por subjugar as árvores,
como antes fora ponte, por possuír as pontes
nos escudos de nobreza profanada
e hoje é imagem de mulher,
objecto entre os objectos oprimidos,
fechada em roupa sem abrigo,
retratada e criada por não ser
e poder,
em escudo novo dos domínios.

16 de março de 2009

Castelos na tardinha

Deixei na sombra algum Castelo
e o esplendor da história na irmandade,
longe o medo,
longe o medo…
e o sonho a tornar-se liberdade.

15 de março de 2009

O funil do sol sobre a Ulhoa

Percorro a paz original,
o governo do ser sobre a terra
antes do desgoverno múltiplo,
da revolta combustível do submundo.
Os meninos sabem das palavras,
e brincam livres neste campo
e filiam luz de ser e sol
e acreditam nos símbolos da vida,
na mais íntima e pura alegria.

14 de março de 2009

In-versos

Nas tardes partimos ao mundo do que foi,
naquele armazém de sonhos
contamos as mesas partilhadas
e os beijos perdidos entre
paralelismos rotos
de linha morta de comboio antigo,
de esperança defunta
e palavras húmidas
ao som que tocava
a orquestra das violas voadoras,
e brindamos com o escasso vento
que ainda fica
pela inocência,
pelo espaço do corpo
e dos espíritos,
pelos dias de riso
e corpo livre,
pela beleza toda,
adolescente
e o brilho dos olhos no verão.


13 de março de 2009

Ruantes

Transitamos as ruas que convivem seres interplanetários,
implicados num espaço vital
no que os sonhos ficam em casa, longe,
e os corpos se deixam a pedir o ar e a luz,
antitéticas vozes de etimologia obscura,
de pranto incorpóreo ficam a ser
e se vende o mundo sem vender,
e se compra sem comprar o direito
a fechar um silêncio
na jaula aberta dos ruantes,
passo a passo, ruído a ruído,
enquanto se espera a chuva
que nos molhe
e uma casa aberta que nos lave.

12 de março de 2009

Sozinha

Ser única.
Transitava, única, de cesto sobre a cabeça
e olhar a olhar
os ocos da cidade.
À sua beira passavam o tempo sem tempo
e a distância perpetuada,
o ritmo alheio
e ela passava a caminhar a rua
como caminha os sonhos,
a caminhar a pedra
como caminha a relva,
e nomear a vida e a esperança,
a tornar surpresa de tantos bens:
roupa nas montras,
dinheiro nos bancos,
carros na estrada,
tantos bens sem os que ela
é rainha coroada
pela sua única cesta na cabeça,
e o seu porte de dona a transitar.

11 de março de 2009

Teoria de cordas

Como as cordas da viola e o espírito da luz
a simetria abstracta nos transforma
no dom supremo,
no tempo da música
a filtrar,
no oco cósmico do amor,
no nosso último destino
de partículas a vibrar.

9 de março de 2009

Tirar máscaras. Para a Doutora Mónica Alzate em Compostela.

Minha menina boa e solidária,
eu também sei da única ciência
de acreditar nas que dizem utopias
e cantar com voz de quem fica calado;
eu também acredito na paz
e me deixa orgulhosa
sentir-te tu mesma entre os racionais
e trazer a Botero e a Gabo
ao cenário quantificador dos itens frios
e deixar a história correr rio
de olhares e ternuras e de dor,
minha amiga,
única mulher julgada por homens
num saber que dizem de mulheres,
única língua entre língua de mentira,
no cenário de uma escola alheia
na terra minha, Compostela...
será que a violência ocupa mais páginas que a mansidão?
Voa longe e perto,
olha o dia,
na alma dos sonhos,
na língua da minha língua,
na cor da tua cor,
minha cor, terra nossa,
compartida.

Gaiteiras

Ser mulher e caminhar de fronte,
herança de mundos e carícias,
de trabalho e terra,
de esperanças...
futuro a campo aberto e flor erguida.

8 de março de 2009

Beira-mar

Sobre os silêncios do coração as nuvens ocupam as alturas
e o horizonte torna luz
e me retorna às vidas já vividas, feitas de nomes e ondas,
de paisagens e ilhas prometidas a adormecer
no ninho dos golfinhos puros, no funil do mar
onde se filtram as únicas flores desfloradas
de pura luz.
A minha história retoma o caminho dos castros
e revolta o contraponto das ondas este dom
com ritmo de serpe cósmica e alento.
Adentro o espírito da deusa mãe,
a pintura de cada noite e a dança de cada pele
de Oeste a Leste, de Norte a Sul,
a geografia humana dos afectos
agora que sei que no sol-pôr
se fundem as idades e os idílios,
agora que sei que as gaivotas
se acarinham sem braços e sem ti,
agora que sei que existe a liberdade
e que em íntimas latitudes aquosas
uma sereia futura deitará o farol da única morada
sob a rocha do amor, a beira-mar.

7 de março de 2009

À janela

Foto: Iara B.R.

Quero ter então a visão dormida à janela
do único entre muitos, entre tantas da primeira
e deixar que se percam o olhar e a memória
e que na rua chova mais uma vez agora
e as pedras resolvam a saudade e os caminhos
e, como sempre, desçam as pombas irisadas
a procurar sustento de lousa e de terra
e os violinos marquem luz de sinestesias
e do fume velho volte a fome de palavras
e queime na garganta até descer carne
e luzir sonhos de puro chocolate,
para tirar chapéus e saudar interiores,
e ousar fora fortunas húmidas
e erguer, longa, a bandeira dos cabelos
ao vento, então,
então, ao vento.

6 de março de 2009

Ciclo de Mouras

Voltou o tempo mágico
e a Moura voltou
de histórias errantes,
de um abandono triste
e uma dor fria
para darnos calor,
para ser nossa história.

5 de março de 2009

Olhar a noite desde a casa

E quando chega a noite,
ter lar é um som de alento
e olhar terra de floresta,
nossa longa casa viva,
enquanto dançam sonhos
e renascem de lua
as fontinhas.

3 de março de 2009

Galiza, Galiza, boi de palha...

...E voltamos em triste maré
aos tempos com sabor a madeira queimada,
aos tempos com odor a naftalina,
aos tempos com imagem de lágrima guardada,
aos tempos com som de campainha de procissão a ajoelhar,
aos tempos com tacto de sorriso artificial
e sentimos o mundo a não sentir
o medo triste a subsistir e também nós perder os sonhos.

2 de março de 2009

Endireitar

Quando era menina e diziam de endireitar meninos,
sentia coletes de força a rodopiar
e imaginava varas que danavam vértebras e liberdade.
As árvores que lutam com os ventos,
obstáculos, linhas do horizonte...
e retorcem o tronco livre e puro
eram arte vegetal e deixavam a levitar a gravidade
e os sonhos a voar.
As letras espontâneas marcavam o ritmo
e o jogo do tempo fugia da caligrafia
nos cadernos de pauta bem marcada
sem espaço para o canto do desenho
e eu nem queria endireitar.
Imaginava mísseis reviradinhos
a voltar à terra que os lançou
para deixar nas pátrias mais direitas,
o mesmo direito a boomerangs.

1 de março de 2009

Sentamos para olhar as ondas sem areia
e que passe a sombra deste tempo de inverno,
e chegou a hora sozinha a pedir,
entre as mesas do café nas que habitava o sono,
e pedia linhas de luz, sobreviver,
entre a mesma chuva que abarrota o espírito
e ninguém deu,
ninguém deu...
As mesas bebiam soberba e altivez
e para acreditar não tinham fé.