29 de abril de 2008

Náufragos


Entornar o azul
e que nasça o caminho.


28 de abril de 2008

Maré

Nos tactos ínfimos,
moléculas de som,
ecos de água,
vontades de infinito.
Eternizar-se breve,
sonhar longo,
tecer lento pele com pele
a vento aberto...

e deixar a surpresa da maré ...
que vem e vai...
que vai e vem...

27 de abril de 2008

Trânsito


A luz tingia o tempo de sonhar
e desfazia linhas, nuvens e infinitos.
Perdida nos silêncios de outro ritmo,
cada onda deixava odor a ti
e tornava azul a praia e a palavra,
para ter a incerteza por bandeira
e a revolta longa nas esferas do som...
Eu remava com nuvens para a luz.

26 de abril de 2008

Telhas

Aguardavam na terra para alçar-se,
mas não queriam tectos nem fronteiras,
nem silenciar o céu, calar estrelas,
apagar a noite e a alvorada
e deixar o dia sem fronteiras.
Tinham medo de lama cozinhada
em lume bravo de azinheira.
Telhas da ternura, som do vento,
perfumado de aromas de lareira,
líquen de lar, para o infinito,
enquanto o tempo brota nas silveiras.

25 de abril de 2008

Olhar o azul


Olhar o azul e pensar os infinitos
sem faca afiada,
sem ternuras prendidas,
sem sentir o sentido,
sem viver o vivido
e, em azul, ver despir-se
aquele mar que não era.
E perder na estrada longa
um caminho de mundo
para dizer, eu sou livre
e já não tenho nada,
sou pobre como as aves,
estéril como a areia
mas não tenho asas brancas,
nem os brilhos de ouro.

23 de abril de 2008

Tempus


Como poderia ser o tempo,
o lugar da treva em que chorar...
se há palavras longas, saudades
de peles infinitas na pupila,
no ouvido, na ponta dos dedos
quando toco a onda
e tem o sabor salgado
de cada lágrima guardada...
Teria que esquecer, ser fume,
não ser, perder-me em trevas longas,
inexistir de alma e deixar o corpo a levitar
por não lembrar os nomes todos,
as palavras todas, os silêncios,
os versos das tardes,
as pessoas segundas,
as terças e as quartas de Janeiro.
Perder-me no limbo de sensuais trombas
com anjos que despem as lembranças,
murchar camélias tristes,
das que riram
e prender na silveira ecos de fome,
história, senda, aprendizagem longa dos naufrágios
enquanto tirava um chapéu ao ar
e assolava os passos no Lima poderoso.

Lares


Ainda a céu aberto,
o fogar
com o calor da história
e a saudade
dos lumes apagados,
as sombras de odores
e a terra do tempo sob os pés.

22 de abril de 2008

Cereal

Como o trigo e a água e o sal levedar
levar ao repouso e ao lume
ao lume e ao repouso
o pão...

21 de abril de 2008

Para Arturo Regueiro. Feliz (no dia de Santo Anselmo de Canterbury)


Meu querido,
desejar-te feliz vida,
desejar-te sempre feliz tempo,
quando ser feliz é um caminho
ao equilíbrio das cordas e dos ventos...
Boa senda e sonhos, meu querido,
que nem falte o pão,
nem falte o alento,
a esperada luz das alvoradas,
e o sono compartido nas jornadas,
intermináveis ocos
onde o verbo e a pele
têm sutaque
do Arthur Disquemiller dos galegos.
Que não falte a mão certa dos filhos ,
que não falte o mais tenro silêncio,
nem cativos que escutem em fervença
os passos e as palavras dos incertos.
Que nunca falte a vida por viver,
água, céu, caminhos e um caderno,
nem música, nem lume nas pupilas
nem anjas vermelhas no ombro esquerdo.
Que nunca falte casa farta e leito,
estirpe de estios, braços velhos ,
amigos e papoilas,
mar e regos,
alento partilhado
e que não falte
terra por semear,
ai, meu labrego...

18 de abril de 2008

17 de abril de 2008

Tecido


Parto ao silêncio e à palavra,
ao ar compartido, tempo aberto;
adorar o côncavo e convexo
numa curva de luz.
Parto à teia longa das mãos dadas,
tecidos de esperança nesta seiva,
frio e calor, horta das trevas
semeada de azul.
Rito iniciático de amores,
ágape, história retornada,
cíclico retorno, vaga eterna,
rio sem rio ...
em ti.

13 de abril de 2008

Assim... (para Arturo)


Verde, mas verde.
Perto, mas perto.
Vida, mas vida.
Seiva, mas cortiça.

12 de abril de 2008

Quilmas... o mar. A terra.


Sair às ruas, povo,
como antes à misa do dia grande
para que haja dias grandes
e futuros de mar,
tempos de terra
e para que os vejam
os que cheguem a ver.

11 de abril de 2008

Abrochar (de ti...)


Do manancial da pele
abrochar o corpo
da alma
e partilhar
o tempo de amor.
Olhar, na luz de íris renovados,
o sorriso dos sonhos,
a esperança,
odor de verbo acompanhado
em tempo de amor.
De eternos recobrados,
de carícia,
de noites prendidas
á alvorada
em tempo de amor.

10 de abril de 2008

Caminhos de água

Mineral com mineral,
onda na pedra,
socava o verbo,
ficando,
acarinhando
o íntimo instinto da rocha,
até que o sol aqueça
e os céus alcem
para retomar o percurso térreo,
a sinécdoque das almas.
Ter os ocos mais tenros perdurados,
ter o sonho esculpido com mãos líquidas,
ter olhos de pena, de rochedo
plenos de água
e sensitivos
os caminhos ao mar,
os caminhos ao tempo.

9 de abril de 2008

Branco e preto

(Autora da fotografia: Iara...)
A branco e a preto como todos,
a grande e mínimo, como olhes,
mas...
sempre...

8 de abril de 2008

Alexandre


É a palavra nova que nasce à vida.
É o olhar verde reflectido.
Ter o lume e a erva,
tudo na mesma adolescência,
e o dom da liberdade
no sorriso.

Janelas

Se chove, não feches a janela.
Se brilha o sol, não feches a janela.
Se abres a janela
à chuva
e ao sol
criarás um arco-íris.

6 de abril de 2008

O vento Sieiro

Procurou refúgio o Vento Sieiro,
na entranha da pedra, no pilar de Gaia,
ali onde se esculpem os sonhos mais velhos
e a treva é verde, e a serpe canta.
Mas era bem frio o Vento Sieiro,
batera com força sobre a pena clara,
moldara o silêncio com palavras loucas,
tomara das mãos tenras à alvorada
e rompera, e rachara,
partira a cantiga da alegria nova
que então se cantava...
Deixou a pegada na linha da rocha,
que desde o sol-pôr foi pena encantada.

5 de abril de 2008

Ocos

Penas de silêncio refugiadas no vento a beira-mar.
A beira-mar não tinha portas.
Nem linhas órfãs de saudade.
Mas deixa ocos no coração, linhas de espera e sonhos de sal
... sonhos de sal...

4 de abril de 2008

Maré

Deixo o tempo a macerar,
deixo as ondas a cantar,
para sorver uma maré
de ti.

3 de abril de 2008

Tempo de mar


Desvincula-se o tempo
dos naufrágios antigos.

Singraduras salgadas
chegam ao cabo do ronsel
e a espuma abre o cofre
dos namoros lentos.

Ontem beijou-me o mar.

Era salgado,
não são salgados todos os beijos.
Sabia a algas e a desejos,
a âncora leve, a sentimentos.

Desprendida a roseta dos ventos frios
aboiou a entranha
na pegada das entranhas longas
e a areia escavou oco de água,
por sonhar,
na travessia da nova primavera,
com a gaivota e o cormorão.

2 de abril de 2008

A novena onda (com Lois)

Silenciar o tempo
até que chegue a onda,
e contar nove
e sentir lentas as palavras
e a entranha de espuma,
tudo espuma
e odor salgado
de beijo novo
e retornado
...em tempos de som,
em tempos de som,
em tempos de som...