
31 de março de 2009
Primeira Primavera. Para Sol Milena

Ninho aberto. Para Cláudia. Para Mari Carmen

O espírito das águas
30 de março de 2009
Lar

Repartem-se a terra e as paredes
o longo desejo de calor
e acabam por ser o mesmo caldo
os rostos do que é e do que foi
em Compostela,
na rua velha,
na casa efémera
a cozinhar
terços de ladainha eterna,
e o mesmo amor a caminhar
na carne em primavera
da estirpe que sabia almar
o jantar do vento com canções
até a mesma ressurreição
do espírito da luz,
quando voltavam a arruda e o romeu
a cimentar ciclo de vidas
e a carícia nova a retomar
lar e palavra em lua ao sol.
29 de março de 2009
Línguas feitas carne
28 de março de 2009
Âncoras aquém. Para Ramiro Torres

Para Iolanda Aldrei, procuradora.
Esta rosa que nasce entre o ser
E o teu caminho traz a recordação
De todas as mudanças que vêm:
Aqui podes descansar o peso dos
Tecidos aderidos ao corpo, dar-lhe
À transparência o seu lugar nas mãos,
Nos olhos nadando os peixes do vazio.
Tua é esta linha que atravessa o tempo
Rumo às barcas perfumadas de sol,
Incrustada em tuas veias a canção
Da procura, a alimentar toda a luz.
Dezembro de 2008. RAMIRO TORRES
Ancorada na baía, proa a terra,
a nave do velho Alexandre voltou.
O capitão amarrou duas lágrimas,
descarregou no porto cheiro a mar,
reiterou a Terra, terra sua
e foi a casa logo, acompanhado
por compadres de longo navegar.
Urbano Lugris apresentou-lhe
Ismael e o capitão Ahab ,
e confessou ser o autêntico,
o único, o mesmo, Ulyses Fingal
o armador de mundos,
terra adentro,
em tempos revoltados até o azar.
E soubemos do cavaco, do convívio,
muito perto da rua Irreal.
Convocados por marinho de sonhos,
achegamo-nos logo a libar o rum
e escutar os cantos que nasciam
acrónicos entre as pátrias e os cais
e pensar em dias que já foram,
em tardes que vinham de além mar.
À sombra da biblioteca, o tempo,
deitava-se utópico a aboiar,
e o coro cantava em voz de ilha
e revoltavam bússolas no olhar
Branda, Carmen Cierto, Karlom López,
Manuel Silvestre, Manoel Bonabal,
Nacho Baamonde, Omar Kessel,
Nando Lestón, Roberto Castro,
Rubén Fenice, Espiñeira,
Sebas Anxo, o Cerviño e Inma Doval,
deixavam nas memórias uma imagem
de luz colectiva e água-lar
para acolher palavras que desciam
até a ribeira desde um vendaval
e partiam papel e rumo ao norte
na nave de moluscos, alga e sal
desde a Torre em Torres de Ramiro.
Alexandre, o novo, companheiro
de incursões na casa do xará,
era coro dos versos que ancoravam
na pele, na árvore da vida,
na luz original, e mão em mão,
viajante também sobre as cidades,
deixava-se esculpir na transparência
que emergia do verbo,
da pena de Ramiro a desenhar
um mundo próprio e colectivo
no que me sentia uma vez mais,
como a luz serena da noite
em que volvemos, sempre,
ao início do canto da união.
27 de março de 2009
Cairn

e floresciam os campos.
Na tarde era sorrir o tempo para o rio
e caminhávamos à beira das zanquinhas
na era dos répteis, dos insectos,
tesouros que aguardávamos no olhar..
No monte brincavam fentos, tojos, carvalhos,
castinheiros, hera longa e cor a acarinhar...
E os muros diziam de fronteiras,
paraísos abertos a chorar,
mas ainda vegetavam as pedras
e segredavam amores como um lar.
25 de março de 2009
Entre cadeias sonhar
24 de março de 2009
الزغابي
23 de março de 2009
Andalusies

O mundo era mundo ainda
e os pássaros deliciavam
mãe terra.
Construir era tempo de fé
na árvore múltipla da vida
e Alá feminava humidades
no paraíso.
Alhambra de al-azahar,
adobe novo dos brilhos,
mármore dos sonhos de verão.
As estórias nasciam da canção
e voltavam os meninos a sorrir
e os adolescentes namoravam
sob os arcos
no sutaque universal da pedra nova,
tornado o céu,
revoltada a primavera
quando prometiam as roseiras sombra,
adorno,
lua de caminho à serra branca
a criar líquidos sentidos
de coração a céu aberto
e fonte,
laranjeira,
Alhambra, menina morena,
olhos de brilho,
bocas de amor,
raíz lavrada no aroma das vozes.
Palavras galaicas
que diziam das idades novas,
terra a Sul e longa estirpe...
Tanto tempo a criar memórias
para nós
19 de março de 2009
Primaveras

a terra viva.
Acordam as flores e os rapazes namoram
de sonho e verde carícia
e reiteram a seiva animal,
janela aberta, alma ardida,
pele nova e linha ao som
da adolescência sentida.
E moro em fonte de moura,
cor de cor,
num caderno
de palavras perdidas.
Abrocho ainda nas águas
entre os contos e os cantos
das mesmas raparigas.
18 de março de 2009
Para dois
17 de março de 2009
Escudos de Senhor

Passa o tempo. O império perdura.
Chega mascarado de ternra,
como fora árvore, para abater as árvores,
como antes fora ave, por subjugar as árvores,
como antes fora ponte, por possuír as pontes
nos escudos de nobreza profanada
e hoje é imagem de mulher,
objecto entre os objectos oprimidos,
fechada em roupa sem abrigo,
retratada e criada por não ser
e poder,
em escudo novo dos domínios.
16 de março de 2009
Castelos na tardinha
15 de março de 2009
O funil do sol sobre a Ulhoa
14 de março de 2009
In-versos

naquele armazém de sonhos
contamos as mesas partilhadas
e os beijos perdidos entre
paralelismos rotos
de linha morta de comboio antigo,
de esperança defunta
e palavras húmidas
ao som que tocava
a orquestra das violas voadoras,
e brindamos com o escasso vento
que ainda fica
pela inocência,
pelo espaço do corpo
e dos espíritos,
pelos dias de riso
e corpo livre,
pela beleza toda,
adolescente
e o brilho dos olhos no verão.
13 de março de 2009
Ruantes

implicados num espaço vital
no que os sonhos ficam em casa, longe,
e os corpos se deixam a pedir o ar e a luz,
antitéticas vozes de etimologia obscura,
de pranto incorpóreo ficam a ser
e se vende o mundo sem vender,
e se compra sem comprar o direito
a fechar um silêncio
na jaula aberta dos ruantes,
passo a passo, ruído a ruído,
enquanto se espera a chuva
que nos molhe
e uma casa aberta que nos lave.
12 de março de 2009
Sozinha

Transitava, única, de cesto sobre a cabeça
e olhar a olhar
os ocos da cidade.
À sua beira passavam o tempo sem tempo
e a distância perpetuada,
o ritmo alheio
e ela passava a caminhar a rua
como caminha os sonhos,
a caminhar a pedra
como caminha a relva,
e nomear a vida e a esperança,
a tornar surpresa de tantos bens:
roupa nas montras,
dinheiro nos bancos,
carros na estrada,
tantos bens sem os que ela
é rainha coroada
pela sua única cesta na cabeça,
e o seu porte de dona a transitar.
11 de março de 2009
Teoria de cordas
9 de março de 2009
Tirar máscaras. Para a Doutora Mónica Alzate em Compostela.

eu também sei da única ciência
de acreditar nas que dizem utopias
e cantar com voz de quem fica calado;
eu também acredito na paz
e me deixa orgulhosa
sentir-te tu mesma entre os racionais
e trazer a Botero e a Gabo
ao cenário quantificador dos itens frios
e deixar a história correr rio
de olhares e ternuras e de dor,
minha amiga,
única mulher julgada por homens
num saber que dizem de mulheres,
única língua entre língua de mentira,
no cenário de uma escola alheia
na terra minha, Compostela...
será que a violência ocupa mais páginas que a mansidão?
Voa longe e perto,
olha o dia,
na alma dos sonhos,
na língua da minha língua,
na cor da tua cor,
minha cor, terra nossa,
compartida.
Gaiteiras
8 de março de 2009
Beira-mar

e o horizonte torna luz
e me retorna às vidas já vividas, feitas de nomes e ondas,
de paisagens e ilhas prometidas a adormecer
no ninho dos golfinhos puros, no funil do mar
onde se filtram as únicas flores desfloradas
de pura luz.
A minha história retoma o caminho dos castros
e revolta o contraponto das ondas este dom
com ritmo de serpe cósmica e alento.
Adentro o espírito da deusa mãe,
a pintura de cada noite e a dança de cada pele
de Oeste a Leste, de Norte a Sul,
a geografia humana dos afectos
agora que sei que no sol-pôr
se fundem as idades e os idílios,
agora que sei que as gaivotas
se acarinham sem braços e sem ti,
agora que sei que existe a liberdade
e que em íntimas latitudes aquosas
uma sereia futura deitará o farol da única morada
sob a rocha do amor, a beira-mar.
7 de março de 2009
À janela

Quero ter então a visão dormida à janela
do único entre muitos, entre tantas da primeira
e deixar que se percam o olhar e a memória
e que na rua chova mais uma vez agora
e as pedras resolvam a saudade e os caminhos
e, como sempre, desçam as pombas irisadas
a procurar sustento de lousa e de terra
e os violinos marquem luz de sinestesias
e do fume velho volte a fome de palavras
e queime na garganta até descer carne
e luzir sonhos de puro chocolate,
para tirar chapéus e saudar interiores,
e ousar fora fortunas húmidas
e erguer, longa, a bandeira dos cabelos
ao vento, então,
então, ao vento.
6 de março de 2009
Ciclo de Mouras
5 de março de 2009
Olhar a noite desde a casa
4 de março de 2009
3 de março de 2009
Galiza, Galiza, boi de palha...

2 de março de 2009
Endireitar

sentia coletes de força a rodopiar
e imaginava varas que danavam vértebras e liberdade.
As árvores que lutam com os ventos,
obstáculos, linhas do horizonte...
e retorcem o tronco livre e puro
eram arte vegetal e deixavam a levitar a gravidade
e os sonhos a voar.
As letras espontâneas marcavam o ritmo
e o jogo do tempo fugia da caligrafia
nos cadernos de pauta bem marcada
sem espaço para o canto do desenho
e eu nem queria endireitar.
Imaginava mísseis reviradinhos
a voltar à terra que os lançou
para deixar nas pátrias mais direitas,
o mesmo direito a boomerangs.
1 de março de 2009

e que passe a sombra deste tempo de inverno,
e chegou a hora sozinha a pedir,
entre as mesas do café nas que habitava o sono,
e pedia linhas de luz, sobreviver,
entre a mesma chuva que abarrota o espírito
e ninguém deu,
ninguém deu...
As mesas bebiam soberba e altivez
e para acreditar não tinham fé.