10 de setembro de 2008

αγγελοι

Foto E. T.

Como as memórias nos enganam
e nos deixam atrás,
e reaparecem, nítidas,
as palavras,
que, com Maria, guardei no coração,
naqueles tempos
nos que calava no leito
e escutava,
nos que sabia que chegaria o dia
que dizias
e sabia quanto amor
de loba precisava
para olhar aos olhos
e acalmar o gato, o cão,
o mesmo mocho,
e sabia do amor
e o procurava,
profundo e inédito,
salvaguardado
da falha insólita
que se anunciava
trás os leves sismos doces
dos que gozaram anjos...
O terramoto
que cindiu o céu e os infernos
e partiu a terra
para revelar pontes possíveis
que temias,
abismos de vertigem
que evitava...
enquanto sonhava montanhas,
uma nova cordilheira,
longe,
onde os olhos não podiam ver
nem sentir os corações sem esperança.
Sim, calei naquele tempo,
não te disse quiçá
como queria partilhar
cada gaveta,
como eu também teria desejado
que todo o meu passado, todo
estivesse no tento das tuas mãos
e ter rido então nos campos de Escócia
e ter chorado ante o Tejo
cada palavra estranha.
Sim, falei depois
de paixões turcas,
de nudismos poéticos,
de noites de dança
com tacto a Caribe,
brindes que teve com a vida
sem ter nada,
apenas a pensar-te,
e tomar forças,
não perder o sorriso,
não chorar estas lágrimas
e aguardar longos passos...
queria costruir,
mas não estavas,
não estava.
Não voltei e não voltaste...
é certo,
e também que houve cordas penduradas:
tínhamos mensageiros
que portavam os rostos,
as vozes e as almas...
encontravam-se
em tardes de verão,
à beira do mar,
à luz da fraga,
houve mesmo jogos de estratégia,
mentiras e verdades acalmadas,
houve perda e ganância
e mundos outros,
continentes novos
que aguardavam,
percorremos as ruas
desde o enfrente,
saudamos distância
sem palavras
e nunca deixei de amar
e poderia dizer sim cada alvorada
quando chegara a pergunta
do passado
e soara... sentes-te querida?
sim, em cada poro da pele,
e na calma da tarde
e na impresença longa,
e na dor que habitava...
E quiçá foi que subi ao monte,
quiçá que chega o Outono à fraga,
mas o olhar voltou
ao horizonte
e lembrou o rosto da tua alma,
rachou o vêu
e o retrato,
o espírito e o corpo que ficaram,
... Ai, o primeiro tremor
fora tão grande...
eu não chegara ao monte,
foi na água,
amansada enquanto me falavas
do mago e da papisa
e eu, clarividente, só calava...
Ai as nossas feras bravas...
os lodos que as vagas revoltaram,
os sonhos que acalmaram as feridas,
carícias que brilhavam
como alvas,
palavras com asas de borboleta
... mas não estavam...
As terras, as paisagens, eram outras...
Tirei a última fibra da couraça.
O teu medo a pontes que não queres,
O meu medo a abismos que me matam...
Apenas um novo terramoto...
Circum-navegar ao encontro pelos mapas,
cruzar até o território alheio...
ou morar em vidas afastadas...
Não sei, mas pagou a pena,
comungar-te em paz
nas noites claras.

2 comentários:

PAUL CONSTANTINIDES disse...

meu
que lindo!
lindo mesmo.

abs
Paul

Iolanda Aldrei disse...

é a crónica de tantas histórias e de apenas uma...
Obrigada, poeta.