14 de maio de 2008

Sol


O desejo de sol
nasceu com a alvorada,
de lamber na tua pele
cada pinga de som
e beijar as palavras
que os teus lábios retratam
e guardar os silêncios
no lento coração.

Palavras


Meu amor, de ti tantas palavras
e nenhuma
e tantos sucedidos
e ao longe sentido algum
e verbo quase-azul no sem-sentido.

Pintava no ar arcos da velha e ocasos,
as terras máis longas do infinito
e nasciam quadrados sem quadrado,
círculos semeados em sorrisos,
fractais de vento e terra,
universos de seiva, sem floresta,
florestas de universo sem um rio,
e as palavras...
amigas velhas,
inimigas,
maremoto de flores e silveiras,
em ti, Regheiro, Chicán novo,
num dia de sonho adormecido.

Amar ave de assas longas,
fera de garras fortes,
peixe de múltiplos brilhos,
em gaiola, em cercado, em água pressa,
em insustentáveis substantivos
é ser e ter e não ter nada,
apenas mentiras e vazios
quando todo o tempo se redime
e o sonho fica redimido.

Ai, palavras de livre liberdade,
sonhos de águas prometidos,
ninho de estrela e monte baixo,
meu amor, um astro no caminho.

13 de maio de 2008

Os amores de Gaia

Entre a rocha, a terra afirma
tempos de tarde e destruição,
do renascer,
do ciclo para assentar solo
na vida futura
e algum dom.
Nasce a flor,
o fruto recomeça,
de longe voltaram propósitos velhos:
deixar flor onde a flor se entregue,
deixar ermo onde nasça o ermo.
Os amores de Gaia.
Retomar a alma,
abrir os sonhos,
semear palavras,
semear insectos
para florescer incógnitas no íris,
na linha do húmus,
nos olhares
e nas horas
do vento e o trovão.

12 de maio de 2008

Ilha Lobeira II

Sonhar ilhas...
Mas não há ilhas,
ou sim, ou não, ou talvez,
incertas fomes da própria terra,
dos penedos preexistentes
que a água guardou.
A linha dos ventos favoráveis
chega com a maré
e acordam breves criaturas
no tempo do ser.
Mas não há ilhas...
silêncios...
incógnitas ou sons de mar,
apenas o leme de um desejo
a entrecortar ondas
e a deixar-se levar.

11 de maio de 2008

Ilha Lobeira I (reivindicar)


Havia dias em que os percebes de Manolo eram o sonho da Lobeira Grande.
Voltava com a vida a casa e Marisol na chalana a sorrir.
O sorriso de Marisol ficou no horizonte da Lobeira.
Os percebes foram com as orelhas de mar, as margaridas, as algas, os ouriços, ao reino da morte lenta, da mostra, do foi...
Mas Manolo subiu ao faro e falou, para que voltem os dias grandes da Grande Lobeira

10 de maio de 2008

Os cabelos de Gaia


Entre madeira e água,
corpo de muitos corpos,
linha de muitas linhas,
sal de ternura e água,
entre os cabelos de Gaia.

9 de maio de 2008

De único horizontal

Qual era o sentido da flor,
o sentido diverso das correntes de ar
do espaço inexistente entre nós,
o hipertexto de amor
e os semas rosáceos que dizias
de vida?
Ascendente ou descendente,
o volume digital da seta
que inala o vaivém do poeta
é a única linha de sonhar:
De acima a abaixo, tu
de abaixo a acima, eu
de acima a abaixo, eu,
de abaixo a acima, tu,
e o som que levita.

8 de maio de 2008

Na Arnela

Entre tempo e tempo
passa o mar
e a paz chegou
desde além-luas
aos sinos de Duio.
Lembranças de chuva
e espigueiros
quando o fume da lareira velha
tinha o sono prendido
nas esperanças que não foram.
Voltar ao vale em vozes novas
e lembrar os ilusos dias de Maria
e os percebes que floresciam na Arnela.
Entre tempo e tempo chegaram versos novos,
liberdades e cantos conquistados,
por onde o sonho nada
salvaguardando a roupa
para algum dia vestir galas
e perder uma horta antiga
de relances e faíscas
nas manhãs da eclipse
e nos contos do sol-pôr.
Mas, por que nos tiram os caminhos
e asfaltam, cimentam lembranças
para não ser?

7 de maio de 2008

Escadas

Era o caminho vertical,
as escadas ao incerto,
tanta chuva aguardada,
tanta água de sol,
tanto céu que sentir,
mas um azul intenso,
liberado em terra de astros.
Queria sonhar cometas novos
mas não que os vazios revoltassem
tristes tempos de ocos na esperança.

6 de maio de 2008

Liberdade

Temos a liberdade dos silêncios,
o tempo conjunto das palavras
e perturbamos as noites
com beijos de alvorecer.