9 de março de 2008

Março


Nascer de flor e tempo e aguardar fecundando palavras,
enquanto a terra de espera torna vida.

Tecto (Para Laura, para Mariana, para Alfonso, Alfredo, para Néstor, para os que nascem de luz na aurora)

Há tectos sobre moradas
e moradas sob o tecto
e moradores de sonhos
que procuram o silêncio
das estrelas e da lua
nalguma noite de inverno
e, com telhado de luzes,
enfrentam o som dos tempos
e conhecem as esferas
nos olhares do universo.
São os que saem para o campo
e despem corpos de feno
ante o frio dos regatos
para vencer algum medo.
E nascem de luz na aurora,
dos mais formosos desejos,
de sofreres e de gozos
e de puros sentimentos.
São almas de caminhante
com o peito descoberto
que temem, choram, resistem
e cantam o antigo verbo
dos herois e as margaridas
sempre com braços abertos.

8 de março de 2008

Mãos (para ti)


Tender as mãos ao vento,
e as linhas do infinito
faze-las possíveis
cantando palavras sem remédio
quando chegam as tardes
e o sol-pôr
torna o sorriso de horizontes
e a esperança
brisa morna e paraíso.

Ser simples aves
que cantavam
a sinfonia do amor
desde uma rama
e tornavam o amor
razão possível
das razões todas,
e o verbo, beijo
das cores misturadas,
intermináveis,
no calor do abraço,
no esperado instante
do passo livre
e da ternura imensa
nos sentidos.


7 de março de 2008

Texturas


De som amarelo
e de cor silente
o aroma doce
é o sinal leve
do último inverno.

Estranho o canto
de nereidas, serpes,
desde a curvatura
de aquele sol breve
leis de acácia longa
que algum mundo cresce.
Os brincos de Gaia
deixam tardes breves.

6 de março de 2008

Refúgios


Não tinha portas.
A casa não tinha portas,
nem o coração,
nem os abraços
nem as cartas,
nem a linha do amor
trás da montanha,
nem o sol-pôr,
nem a alvorada.

Adentro entrava o frio,
e o canto das aves,
e a dor do vento entrava,
e o abraço do sol
e a chuva mais triste
e a palavra mais cálida
entravam.

Não tinha portas.
A casa.

5 de março de 2008

Fechaduras verdes

Compreender o tempo
e as palavras
e a vida de sonhos
e os caminhos
e a dor dos beijos
que secavam os lábios
como o vento
dos desertos todos.
Compreender,
partilhar
do outro lado do espelho,
voltar às esferas frias
e repensar a vida de momentos,
sem lágrimas,
com as raízes volteadas
a um céu cheinho de estrelas
e desejos.
Voltar à paz dos lugares formosos,
aos singelos passos do caminho
e reter duas horas
no eco das distâncias.

Quero mirar os teus olhos
por lembra-los
e tender futuros
que não tenho
e sentir as gaivotas
na tua fronte
e as palavras errantes
no silêncio.
Abrir as portas
e as janelas,
aspirar odores
e sendeiros,
desvelar os cândidos amores
que regala a vida
entre os momentos.
Amar passados que não foram,
pisar os lânguidos pretextos
e esperar as luzes
quando cheguem
e fazer lugar no odor da erva
para abrir-te um oco
na memória,
para fechar em verde
o teu recanto.

4 de março de 2008



O tempo nas mãos
e na palavra
de ria a ria.

Odor a mar de infância,
odor de infinitos claudicados
sob as cordas do arco-íris
e um seixo no peto.
Voltar à magia das gaivotas
e tingir os olhos de sal verde,
de escuma no ritmo das vagas
lentamente, escutar e dizer canções
de adentro.

Meu querido, tu eras água,
eu era terra.
Tinhas o céu à tua espera
para além das montanhas.
Regatos que não ficam tornam nuvem,
choverão algum dia,
quiçá sobre a côdea do húmus
deitem pingas breves
que não bastam,
quiçá para então haja seca
e a terra, quarteada, não absorva
o teu espírito,
quiçá outros rios te rejeitem
ou a orografia proíba o teu percurso
e fiques poça apenas.
Tinhas a opção do mais cálido frio
para chegar ao mar em percurso,
em som, em ritmo solidário,
em companhia,
ou estava o instante do sol,
a força, a glória, a tangente vencida,
o ouro alto e o rápido voo da nuvem.
Eram céu ou terra
e prometias rio...

3 de março de 2008

Terra

Dor de seca permanecida,
de incêndio outro,
devastada floresta de ilusões iludas
em tempo de estio.

Chegou o dia da chuva.
Não há erva,
não há árvores,
não há terra.

A rocha, a rocha mãe,
sustenta uma vida estranha.
A devastação dos sonhos.
A ânsia impossível dos amores,
do húmus perdido que não chora.
Saudade da pena, sob o tempo,
saudade da lágrima ardente,
saudade das raízes e das ervas,
da clara lentidão daquele insecto.

E a pedra tenra
e o silêncio.

2 de março de 2008

Baixo as águas


Lágrimas sob o rio,
sob as águas,
lágrimas de paz e de ternura,
verdes lágrimas das sereias verdes,
que choraram o tempo de sonhar.

1 de março de 2008

No canto do fim do mundo (Para Laura)

Há milagres. Eu sei.
Num ocaso do fim do mundo cantava um peregrino e o mar se detinha na pena da saudade.
Para a terra de Tir nan Og partiam naves e a canção era o único tempo de sonhar entre a luz e sol-pôr.
Há milagres. Aprendi, escutando uma canção, à beira-mar do final do caminho, quando era Outono e a tua palavra guardava as últimas luzes para voltar.
Há milagres. Senão, como semeia o vento sem trabalhar a terra, sem percorrer oceanos?
Mas o milagre da alegria. O brilho dos olhos. O som do amor em tempos de gozo...
Há milagres... construídos no oco das mãos e no sorriso.